
Em julho de 2023, o governo federal lançou o Desenrola Brasil com uma promessa ambiciosa: retirar milhões de brasileiros da inadimplência e devolver-lhes o acesso ao crédito. O programa funcionou em duas faixas — a primeira voltada para pessoas com renda de até dois salários mínimos ou inscritas no CadÚnico, com descontos mais generosos e respaldo direto do Tesouro; a segunda destinada a devedores com renda um pouco mais elevada, operada pelos próprios bancos, sem garantia pública. Ao ser encerrado, em meados de 2024, o Desenrola original havia beneficiado cerca de 15 milhões de pessoas e renegociado mais de R$ 53 bilhões em dívidas.
Agora, instituído pela Medida Provisória (MP) 1.355, de maio de 2026, chega o Novo Desenrola Brasil. O programa mantém a lógica central da edição anterior, mas amplia o escopo ao atender pessoas físicas com renda de até cinco salários mínimos (R$ 8.105), oferece descontos que variam entre 30% e 90% sobre o valor total da dívida, permite parcelamento em até quatro anos e, como novidade, autoriza o uso de até 20% do saldo do FGTS — ou R$ 1 mil, o que for maior — para amortizar débitos. O programa também prevê uma frente específica para estudantes inadimplentes do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), com parcelamentos que podem chegar a 150 vezes. Em seus primeiros dias, já acumulava quase R$ 1 bilhão em dívidas renegociadas e cerca de 100 mil operações concluídas.
A medida tem méritos evidentes. O Brasil chegou a fevereiro de deste ano com o endividamento das famílias no maior nível da série histórica, segundo o Banco Central (BC): 49,9% da renda comprometida. Para quem está com o nome sujo, a restrição ao crédito não é apenas inconveniente; esta bloqueia o acesso à moradia, ao emprego e até a serviços básicos. Nesse contexto, a chance de limpar o CPF com desconto real é um benefício concreto e imediato para pessoas que, muitas vezes, se endividaram em situações de vulnerabilidade extrema, como desemprego, doença ou inflação de alimentos.
O problema é que o Desenrola 2.0, assim como o original, trata o sintoma sem enfrentar a doença. O primeiro limite é estrutural. Programas de renegociação em massa beneficiam diretamente os balanços das instituições financeiras. Dívidas que estavam provisionadas como perda (e, portanto, já deduzidas contabilmente pelos bancos) voltam a ser ativas ao serem renegociadas. O banco recupera um ativo, melhora seus índices de inadimplência e ganha um novo contrato de crédito com o mesmo devedor. O benefício ao consumidor é real, mas não se deve perder de vista que o sistema financeiro é um dos principais beneficiários de cada edição do programa.
O segundo limite é comportamental, e talvez o mais sério. O Desenrola não vem acompanhado de nenhuma política forte de educação financeira que efetivamente mude a relação do devedor com o crédito. O próprio governo reconhece isso ao incluir, na nova versão, o bloqueio a plataformas de apostas para quem adere ao programa, medida que revela consciência do problema, sem, contudo, resolvê-lo. Sem entender juros compostos, sem compreender o funcionamento do rotativo do cartão e sem ferramentas práticas de gestão do orçamento, uma parcela relevante dos beneficiados tende a reproduzir o mesmo ciclo de endividamento. A evidência anedótica já existe: parte dos inadimplentes do Desenrola 2.0 é composta pelas mesmas pessoas que renegociaram dívidas em 2023 e voltaram a se endividar.
Isso nos leva ao terceiro problema, o moral hazard (ou risco moral). Quando o devedor aprende, pela experiência repetida, que o governo periodicamente lança programas de perdão parcial de dívidas com descontos de até 90%, o incentivo implícito é perverso — pagar em dia deixa de ser a estratégia mais racional. A expectativa de uma nova rodada de renegociação futura pode, paradoxalmente, desestimular a adimplência no presente. Não se trata de atribuir má-fé ao devedor, mas de reconhecer que agentes econômicos respondem aos incentivos que enfrentam e que programas extraordinários recorrentes criam incentivos extraordinariamente ruins.
O Desenrola 2.0 é, portanto, bem-vindo para quem precisa sair do sufoco imediato, mas não substitui o que de fato resolveria o problema estrutural do endividamento crônico no Brasil: juros menores no crédito ao consumidor, regulação mais dura do rotativo do cartão, educação financeira integrada desde a educação básica e uma política de crédito que não dependa de programas emergenciais para funcionar. Enquanto essas condições não existirem, haverá, inevitavelmente, um Desenrola 3.0.
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